O Bloco Siriricando e as mulheres lésbicas e bissexuais no Carnaval de São Paulo

Barbara Falcão
Milena Fonseca Fontes¹

“As conexões com e entre mulheres são as mais temíveis, as mais
problemáticas e as formas mais potencialmente transformadoras no
planeta.” Adrienne Rich

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O Bloco Siriricando é um bloco de carnaval de protagonismo lésbico e bissexual que sai
nas ruas do centro da cidade de São Paulo, desde 2016. Fundado por um grupo de mulheres
lésbicas e bissexuais de diferentes matizes, o Bloco Siriricando procura promover espaços de
convívio e fortalecimento da identidade lésbica e bissexual, a liberdade sexual, a
conscientização sobre a reprodução de preconceitos existentes na sociedade brasileira,
considerada machista e patriarcal. Acolhedor a toda a comunidade LGBTQIA+, é baseado

no protagonismo e visibilidade lésbica e feminista, principalmente por meio da música e da
arte. Nas nossas canções, procuramos ressignificar de maneira criativa e bem humorada letras
de conhecidas canções de carnaval brasileiras. O Bloco Siriricando também promove a
coalizão e a colaboração de artistas de diversas áreas, já que se organiza em rede, por meio do
trabalho colaborativo. Também busca formas de intervenção social por meio de
conscientização e economia criativa nos eventos que realiza. Dessa forma, procura atuar
política e socialmente para além do carnaval, no contexto brasileiro, que vive um retrocesso
autoritário, desde 2016.


Palavras chave: Lésbicas, Feminismo, Carnaval, bloco de rua, Bloco Siriricando.

¹Barbara Falcão é mestranda em Letras na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).
Milena Fonseca Fontes é Mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). As autoras são integrantes do bloco Siriricando desde sua fundação. E-mail: blocosiriricando@gmail.com

Combate ao racismo – Daniela da Cruz de Souza

Desde o dia 25 de maio do ano de 2020, quando em Minneápolis, cidade do estado norte-americano de Minnesota, um homem negro de 46 anos foi asfixiado até a morte por um policial branco, uma série de manifestações antirracista tem se espalhado pelos Estados Unidos e pelo mundo. Junto a essa onda de manifestações que surgiram a partir do assassinato de George Floyd, comparações entre a situação do negro e as questões raciais nos Estados Unidos e no Brasil passaram a ser frequentes.

A questão racial no Brasil é muito antiga, ouso dizer que só existe Brasil porque a racialização foi imposta. Boa parte dos intelectuais negros brasileiros tem se dedicado em entender como o racismo se configura em nossa sociedade. Fruto desses estudos, o conceito de Racismo Estrutural vem sendo difundido e amplamente discutido. O fato de o racismo fornecer alicerces sólidos para construção da sociedade brasileira implica em termos sérias dificuldades em dar início ao seu desmantelamento, pois sua destruição acarretaria em perda de privilégios e vantagens por setores da sociedade brasileira, grupos muito empenhados em manter a desigualdade exatamente como ela está.

Dizer que o racismo é estrutural não pode, como interpretações equivocadas do termo têm sugerido, criar estagnação na sociedade e nos eximir da responsabilidade individual de combatê-lo. O racismo é estrutural no conjunto das relações sociais da sociedade brasileira, atravessando o campo político, jurídico, social e econômico. A condição do negro perpassa todas as esferas sociais, pois o processo de construção do Brasil foi pautado inclusive em negar a vida, a liberdade e a dignidade aos negros, portanto o país se organizou para que os negros não tenham lugar neste projeto de nação.

Foto: John Minchillo/AP Photo

Assim como nos Estado Unidos, aqui no Brasil, as principais vítimas do covid-19 são as pessoas negras, pois as mesmas se encontram em condições mais vulneráveis. A primeira vítima fatal do novo coronavírus em território nacional é um bom exemplo do racismo estrutural no país, uma senhora negra de 63 anos, que trabalhava como empregada doméstica para a mesma família há dez anos, foi infectada por sua patroa que acabara de voltar da Itália, à época, epicentro da doença. A funcionária morava no município de Miguel Pereira e trabalhava no Leblon, bairro nobre na zona sul da cidade do Rio de janeiro, o metro quadrado mais valorizado do país. Alguns dias da semana, para evitar o longo trajeto de 120 km de distância, a empregada dormia na casa que trabalhava. Foi infectada e morreu antes mesmo de ter acesso ao respirador, pois sofria de comorbidades (obesidade, hipertensão e diabetes), sua patroa se tratou num hospital de referência no Rio de Janeiro e está curada.

Ao esmiuçar este caso, várias questões deveriam incomodar a sociedade, contudo, o não questionamento é o que reforça o caráter estrutural do racismo. Por que historicamente quem exerce o trabalho doméstico são mulheres negras? Por que as comorbidades que acometiam a vítima são historicamente mais comuns em pessoas negras? Por que a patroa não dispensou a funcionária já que o serviço doméstico não é considerado essencial, além de a mesma fazer duplamente parte do grupo de risco por comorbidades e por faixa etária? Por que a patroa não cumpriu quarentena, se isolando totalmente ao retornar de viagem? Por que a vítima não teve acesso aos bons recursos dos quais a patroa usufruiu para garantir sua plena recuperação?

Desta forma, a história do negro no Brasil tem sido uma constante luta por sobrevivência, pois o Estado brasileiro tem se mostrado eficaz em não fornecer se quer as condições mínimas de sobrevivência à população negra, portanto no Brasil, casos como o assassinato de George Floyd pela violência do poder público não é o único método utilizado para exterminar os negros, outros mecanismos foram aqui adotados e aprimorados ao longo dos séculos gerando um mórbido efeito cascata nas vidas negras brasileiras. Um exemplo claro disso é o efeito da pandemia, que tem entre os negros as suas maiores vítimas, não porque o vírus não seja democrático, mas talvez porque o Brasil não seja.

Esses questionamentos são essenciais para compreendermos e, a partir daí, debatermos o combate ao racismo no Brasil. São inúmeros os exemplos da aplicação da necropolítica no país, da qual os negros são as principais vítimas. Podemos citar o caso ocorrido no dia 18 de maio de 2020, no Complexo do Salgueiro em São Gonçalo (RJ), quando João Pedro, menino negro de 14 anos, foi morto pela polícia com um tiro de fuzil dentro de sua casa enquanto brincava. Sua residência foi atingida por 70 tiros, mesmo sob os gritos das crianças (no total eram 7) que ali brincavam. Seu corpo ficou desaparecido por 8 horas após ser levado pela polícia antes de dar entrada no IML (Instituto Médico Legal). Se fizermos o exercício de imaginar qual seria a reação da sociedade e da mídia, caso ocorresse o mesmo com uma criança branca em um bairro nobre de qualquer região do país, entenderemos que não, as vidas negras não importam. Pelo menos não tem importado para uma parcela considerável da sociedade, bem como para parte da mídia.

A construção do imaginário da sociedade brasileira foi, e ainda é pautada no racismo enraizado que não a permite perceber que ao proferir discursos como “somos todos iguais”, desconsidera as diferenças que historicamente foram reforçadas e impedem que a população negra acesse as políticas públicas. O não acesso a tais políticas acarreta em consequências irreversíveis aos negros, para citar apenas um exemplo disso, foi somente a partir da política de cotas que muitas famílias negras tiveram, pela primeira vez, em gerações, ao menos 1 membro com nível superior de escolaridade. Sem políticas públicas que promova a igualdade racial, o acesso aos melhores postos de trabalho, a garantia à educação de qualidade, o direito à saúde, ficam cada vez mais distantes das populações mais vulneráveis.

Neste sentido, antes de pensar em combater o racismo, primeiro devemos assumir que ele existe, pois não é possível lutar contra algo inexistente, outra medida a ser adotada é encararmos que não somos todos iguais, portanto, precisamos discutir medidas que nos garantam equidade, respeitando, obviamente, as particularidades de cada grupo. É válido adotar um posicionamento simbólico contra o racismo como a adesão à hashtag “black lives matter” (vidas negras importam),  nas redes sociais, porém não é o suficiente; isso porque na prática as pessoas que se posicionam contra o racismo são as mesmas que se declaram contra os programas sociais que atendem majoritariamente pessoas negras; não é o suficiente porque não causa mudanças nas estruturas policiais que enxergam os negros como ameaças constantes; não é o suficiente porque não combate o racismo institucional presente nas cadeias, escolas, hospitais e etc.

Para a população negra, a falta de representatividade nas diversas esferas sociais, inclusive nas áreas políticas e econômicas, por exemplo, é mais um entrave para que brancos e negros tenham condições de igualdade, pois os cargos de poder são exercidos por homens brancos que atendem a demanda de seu grupo. Não há como os negros alcançarem os mesmos níveis de representação que os brancos nos mais altos escalões hierárquicos de poder, pois a elite branca construiu uma rede de autoproteção que protege a população branca e garante, há séculos, vantagens e privilégios, além de proporcionar inclusive imunidade jurídica, ao passo que as pessoas negras são as mais condenadas no país.

Sobre os privilégios da população branca, podemos lançar mão de mais um recente acontecimento que explicita toda a estrutura racista sobre a qual se ergueu a sociedade brasileira. No dia 2 de junho de 2020, outra mulher negra, empregada doméstica, estava trabalhando no momento em que o Brasil já era aspirante a epicentro da pandemia de covid-19. Sua patroa, primeira-dama de Tamandaré (PE), uma mulher branca, deixou Miguel de apenas 5 anos, filho de sua funcionária, sozinho no elevador do prédio no condomínio de luxo onde vive em Recife. O menino morreu ao cair do 9º andar do prédio e as imagens mostram quando a primeira-dama apertou o botão de número 9 do elevador. A mãe de Miguel estava passeando com o cachorro da patroa quando seu filho foi negligenciado.

Momentaneamente, o caso gerou certa comoção, porém não foi feito um debate profundo sobre todos os aspectos que permeiam este caso. Para fazermos esse debate algumas informações são fundamentais: a funcionária da família era registrada como funcionária da prefeitura, ou seja, seu salário era pago através das contas públicas do município de Tamandaré, evidenciando a não divisão entre o público e o privado; o prefeito não reside no município de seu mandato; a patroa e primeira-dama cadastrou-se para receber o auxílio emergencial do governo; ao ser acusada de homicídio culposo,  a patroa pagou fiança no valor de 20 mil reais e deixou a delegacia; no dia do crime, além da mãe da criança, outra funcionária, uma manicure, também estava na residência, exposta ao risco de contágio (lembrando que ambas atividades, a doméstica e a de estética, não são consideradas atividades essenciais); no dia de seu depoimento a delegacia abriu 2 horas antes para que a mulher não tivesse problemas em sua chegada. Essas informações servem para compreendermos os privilégios aos quais a população branca sempre usufruiu.

O ideal seria que não enxergássemos nada de normal neste caso, a história é toda errada, mas, para aproveitar apenas um aspecto muito impactante da construção do racismo impregnado em nossa sociedade e escancarado diante de nossos olhos, observemos que as crianças negras são vistas como aquelas que “já sabem se virar”. Como normalmente são essas crianças que estão nos semáforos trabalhando é comum que as julguemos como capazes de se proteger sem a presença de um adulto responsável. Desde sempre, a imagem da criança negra foi associada ao termo “pivete”, ou seja, menino crescido. A mídia ajudou a construir essa imagem marginalizada e maliciosa, ao ponto de dar a entender que uma criança de apenas 5 anos fosse capaz de estar desassistida de um adulto no uso do elevador, quando as placas de aviso do equipamento exigem que crianças menores de 10 anos estejam acompanhadas de um adulto. Talvez seja essa a face mais cruel do racismo, imaginar que é muito improvável que isso ocorra com uma criança branca, pois seu “ar angelical” pressupõe fragilidade e demanda cuidado.

Ainda sobre o privilégio branco, outro exemplo que está na mídia e que expõe o racismo estrutural é o caso do ex-ministro da Educação que, após se envolver em inúmeras situações constrangedoras, algumas delas criando verdadeiros imbróglios diplomáticos entre o Brasil e países parceiros, além de fazer parte de grupos conspiratórios que praticam atos antidemocráticos, Abraham Weintraub foi indicado para cargo no Banco Mundial, saiu às pressas do país, utilizou indevidamente o passaporte diplomático e burlou a quarentena norte-americana, é o que chamamos de “cair pra cima”, somente a branquitude desfruta de tamanho privilégio. Não reconhecer que somente uma determinada parcela da população usufrui de tamanhas vantagens é uma forma de perpetuar o racismo.

É muito comum, nos discursos contra as cotas raciais, por exemplo, referirem-se a elas como política de vantagens que coloca os negros à frente na busca por vagas em universidades. Há inclusive uma ala que defende que esse tipo de política de inclusão fomenta o racismo, porém é importante que a branquitude reconheça que suas vantagens são infinitamente maiores e geradoras de desigualdades que visam manterem os negros sempre atrás. Embora haja pressão por parte das mais diversas frentes dos movimentos negros e mesmo elas sendo responsáveis por garantir, através de muita luta, os pequenos avanços na área em séculos de resistência, é difícil concorrer com os números que mostram que a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. Quando pensamos nas consequências de séculos de negação de acesso à dignidade imposta à população negra, devemos incluir outro dado que interfere diretamente na configuração da estrutura familiar dos negros: a ausência da figura paterna é mais recorrente entre as famílias negras e esses pais normalmente, se encontrariam na faixa etária mais atingida pela violência policial.

Portanto, uma sociedade que vislumbre desfrutar de uma democracia plena, precisa se despir da política neoliberal na qual cada um “vale o quanto pesa”, pois dentro desta lógica, os negros sempre valerão menos, já que é parte do neoliberalismo racializar para classificar e dividir. O enfrentamento ao racismo é uma luta pela sobrevivência dos negros, mas as vozes que exercem poder no país são brancas, ao passo que a luta antirracista deve ser prioridade dos brancos, pois eles regulam todas as esferas da sociedade. Neste sentido, vale ressaltar que ao contrário do que se pensa, a população negra não é especialista em racismo, o verdadeiro especialista no assunto é a branquitude, os negros são especialistas em resistir ao racismo.

Daniela da Cruz de Souza

Professora de História e Sociologia da rede pública e privada
Pedagoga, Mestranda em História Social/ PUC-SP
Pesquisadora nas áreas de violência Institucional, Racismo e Necropolítca
Idealizadora do Projeto Educação Antirracista